
Quem lida com discus, já viu o cenário muitas vezes: o peixe perde o apetite, deixa de evacuar, escurece, surgem fezes brancas filamentosas, fica apático, deixa de procurar comida, começa a emagrecer e morre de uma infecção bacteriana potenciada pelo estado de profunda debilidade geral e pela degradação do seu sistema imunitário.
Aconteceu comigo e já aconteceu com toda a gente.
Com a experiência, já não se deixam os bichos morrer.
Matam-se, metendo-os dentro de um saco com água, que vai para o frigorífico, para, ao menos, lhes apressar a morte e assegurar que seja indolor.
Custa muito, mas é pior ver um bicho aos saltos, a rodopiar no estertor da morte.
Da primeira vez, corri os fóruns e encontrei dezenas de relatos e pedidos desesperados de ajuda, conjuntamente com o mesmo diagnóstico (são ténias) e a mesma solução milagrosa (o flagyl na água).
Não esqueço o dia em que, com um peixe a emagrecer a olhos vistos, apliquei o dito Flagyl na água e o animal começou a expelir um longo filamento translúcido pela cloaca.
Era a ténia, a malvada, o bicho nojento e asqueroso estava morto e o peixe salvo.
O meu primeiro acto veterinário tinha sido um sucesso.
Não foi e o peixe morreu duas ou três semanas depois.
Morreu, porque não tinha ténia nenhuma e o Flagyl na água não faz efeito nenhum para o mal que o bicho padecia.
Um pouco de estudo mais aprofundado, mostrou-me que os discus (com excepção dos selvagens recolhidos da natureza) muito raramente são afectados pelas denominadas ténias e que, em rigor, são platelmintos ou nematelmintos, que aquelas "ténias" eram, de facto, a mucosa intestinal afectada a ser expelida e que aqueles sintomas correspondiam, na verdade, a uma infestação pelo protozoário flagelado em epígrafe.
O mesmo estudo cuidado revelou-me também que o modo tradicional de combate à doença passava pelo metrodinazol, princípio activo do dito Flagyl (medicamento de uso humano, que é um antibiótico de largo espectro, muito usado nas denominadas doenças de senhoras), quer na água, que na alimentação.
Pois se era o Flagyl que matava o cabrão do protozoário, seria o Flagyl que ia matar os protozoários dos meus peixes.
Penei.
Quando o bicho mostrava sintomas e já não comia, lá esmagava os comprimidos e diluía na água.
Morriam invariavelmente.
Passei a dar-lhes o Flagyl na comida e, por vezes, parecia que funcionava.
Mas, passado uns tempos, lá voltava o mal.
Estive prestes a desistir dos peixes.
Andei pelo flubendazole (Fluvermal), pelo praziquantel (Tenilvet), pelo mebendazol, pelo nifurpirinol, toda uma parafernália de medicamentos e combinações de medicamentos para uso humano, uso veterinário e preparados próprios para a aquariofilia, com tentativas de diluição em água, em álcool etílico e em tudo o mais que ao diabo possa lembrar.
Remédios de gente, de pombos, de porcos, de cavalos, de peixes, remédios de tudo.
Quando engordei a ninhada que comprei ao Duarte (os pais destes que agora por lá andam) descobri um produto composto por metrodinazol a 100%, o Metro da Seachem, que comecei a dar na comida de dois em dois meses, cinco dias seguidos, conjuntamente com um outro produto da mesma marca o Focus, que, basicamente, é nifurpirinol, um outro potente antibiótico.
Funcionou.
Os bichos cresceram, medraram e nunca mais voltei a ver fezes brancas filamentosas.
Repeti a receita com estes marmelos e também nunca tive chatice nenhuma.
Com a arrogância dos imbecis, sorri quando vi estes novos com fezes brancas.
Umas colheradas da poção mágica na comidinha, que é para limpar a tripa e ficam como novos.
Não ficaram.
Aquilo limpou, mas voltou.
Os quatro azuis e o Alenquer da lista preta deixaram de comer.
Fiz metrodinazol na água.
Nada.
Era um problema que sinceramente esperava não voltar a ter e que só existe fruto da minha grande incúria ao não fazer quarentena.
Mas está aí, o mal está feito e, agora, não vale a pena chorar sobre leite derramado.
Há que encontrar uma estratégia de combate e ganhar a guerra, ou, pelo menos, o maior número possível de batalhas.
Cada peixe é uma batalha.
Primeiro passo, estudar.
Só agora descobri 3 importantes factos que explicam a minha experiência e a ineficácia do metrodinazol nas circunstâncias em que o utilizei.
1º o metrodinazol tem por temperatura de actuação os 37º. É um medicamente para uso humano, funciona à temperatura do corpo humano. Como os discus não podem ser sujeitos a tempraturas superiores a 35º e é vulgarmente recomendada a sua aplicação a 30º, está aqui a primeira causa da ineficácia do tratamento em água e explicado o relativo sucesso do uso na alimentação.
2º o metrodinazol dissolvido em água precipita quando exposto a luz intensa. Nunca vi recomendado o apagão durante o tratamento e os aquários estão normalmente expostos a luz forte. Mais uma razão para justificar a ineficácia do tratamento em água e a eficácia do uso na alimentação.
3º o metrodinazol combate eficazmente o protozoário em causa, mas não elimina os seus cistos que existam na parede intestinal do animal, o que explica as frequentes recidivas, mesmo em animais desparasitados por via oral.
Portanto, não há nada a fazer?
Tem de haver.
Parti agora para uma estratégia agressiva de tratamento em aqua hospital, a implicar a transferência dos peixes, utilizando a combinação de 5-Nitro-1,3 thiazol-2-ylazan, palmitato de ácido ascórbico e bissulfato sódico de menadiona, sendo que a menadiona é o agente catalisador do tiazol, apresentado pela Sera, na sua linha profissional, sob a marca Flagellol.
Diz que funciona.,
Para já, tenho três bichos no aqua hospital, sem filtro biológico nenhum, em respeito pelas instruções da bula.
Não faz muito sentido a recomendação de fazer o tratamento durar três dias com uma única aplicação, num aquário sem filtro biológico, pelo que vou fazer TPA diária de 80%, com água do tanque principal e de reposição, na proporção de 50%/50%, mantendo na coluna de água a quantidade do medicamento eliminado pela troca (1ml/40l), através da adição diária do proporcional.
Allah uh akbar.